IIMercado·12 de setembro de 2026·5 min de leitura

Amendment 3 na Flórida: o que a redução de imposto predial muda para quem tem imóvel em Miami

A Florida Realtors destina US$ 10 milhões para aprovar a Amendment 3, que pode reduzir significativamente o imposto predial em South Florida. Para quem tem ou avalia imóvel na região, entender o mecanismo dessa mudança vale mais do que esperar o resultado da votação.

A clear view of Miami City Hall displaying an Indian flag under a bright blue sky.
Foto: Juan Ramirez / Pexels

US$ 10 milhões numa campanha de aprovação de emenda constitucional.

A Florida Realtors — a maior associação comercial do setor imobiliário da Flórida — anunciou que vai destinar essa cifra para apoiar a Amendment 3, proposta que vai a votação em novembro e que promete reduzir de forma significativa o imposto predial (property tax) no estado.

Para quem acompanha o mercado de South Florida de fora, parece notícia política. Para quem tem propriedade aqui, é notícia de conta bancária.

O que é a Amendment 3, em linguagem direta

A Flórida já tem um histórico de isenções sobre imposto predial para residência principal — o chamado Homestead Exemption, que existe desde 1994 e congela parte da base de cálculo do IPTU local para quem mora no imóvel. A Amendment 3 vai além.

A proposta expande a proteção sobre o valor avaliado do imóvel. Na prática, limita o quanto a prefeitura pode aumentar a base tributável a cada ano — mesmo em momentos de valorização forte como os que South Florida viveu entre 2020 e 2023.

O impacto direto: a conta anual de property tax cresce menos, mesmo quando o valor de mercado do imóvel sobe.

O impacto indireto: o custo fixo de manter a propriedade — que já inclui condomínio, seguro e assessment — fica um pouco mais previsível.

Por que US$ 10 milhões numa campanha estadual

Emendas constitucionais na Flórida precisam de 60% de aprovação popular para passar. Não é maioria simples.

A Florida Realtors já investiu antes em campanhas semelhantes — e sabe que aprovação de medida tributária exige volume de comunicação fora do comum. O setor imobiliário tem interesse direto: property tax mais baixo melhora o fluxo de compra e venda porque reduz o custo anual percebido de manter o ativo.

Minha leitura: a associação não está fazendo filantropia. Está calculando que cada ponto percentual de redução de imposto move compradores do campo da análise para o campo da decisão.

Essa lógica funciona especialmente para o comprador brasileiro, que frequentemente avalia o imóvel de Miami como investimento de longo prazo — e onde a conta mensal importa tanto quanto o preço de entrada.

O que muda na prática para quem tem imóvel em Miami-Dade, Broward e Palm Beach

Vamos ao concreto.

Um imóvel avaliado pelo município em US$ 1 milhão em Miami-Dade paga hoje, em média, entre US$ 10.000 e US$ 14.000 por ano em property tax — dependendo da localização exata e das isenções já aplicadas. Isso equivale a algo entre US$ 833 e US$ 1.166 por mês só de imposto predial.

Em Sunny Isles, onde muitos imóveis de alto padrão são residência secundária (sem acesso ao Homestead Exemption), a conta é ainda maior porque a base não tem o teto de correção anual. Um apartamento avaliado em US$ 2 milhões pode ter uma conta de property tax acima de US$ 28.000 por ano.

Se a Amendment 3 passar e criar um teto de correção anual mais restrito para todos os imóveis — não só para residência principal —, a conta cresce mais devagar mesmo com o mercado valorizando.

Para o proprietário que não mora na Flórida e não tem acesso ao Homestead, esse ponto é especialmente relevante.

O mecanismo que pouca gente explica

O property tax na Flórida não incide sobre o valor de mercado do imóvel. Incide sobre o valor avaliado (assessed value) pelo município — que pode ser diferente, às vezes bem diferente, do valor de mercado.

O Homestead Exemption já limita o crescimento do assessed value para residência principal em 3% ao ano ou o índice de inflação, o que for menor — essa proteção se chama Save Our Homes.

A Amendment 3 propõe estender uma lógica parecida para outros tipos de imóveis, incluindo propriedades de investimento e residências secundárias que hoje não têm nenhum tipo de teto.

Isso muda o jogo para investidores. Quem comprou um imóvel para renda em locação em Downtown ou no Edgewater viu o assessed value subir agressivamente nos últimos três anos acompanhando a valorização de mercado. A conta de imposto foi junto. A Amendment 3 colocaria um freio nisso.

O que ainda não está claro

Duas coisas merecem atenção antes de qualquer cálculo.

Primeiro: emendas constitucionais estaduais interferem na arrecadação municipal. Municípios de Miami-Dade e Broward já sinalizaram preocupação com perda de receita — e têm instrumentos para compensar ajustando a alíquota (millage rate) dentro de certos limites. Ou seja: o teto no assessed value pode ser parcialmente compensado por alíquota mais alta. O resultado líquido depende de como cada município responder.

Segundo: a aprovação ainda depende dos 60% de votação favorável em novembro. O histórico de emendas tributárias na Flórida mostra que elas costumam ter apoio popular — mas 60% é uma barra alta, e US$ 10 milhões de campanha pró-aprovação sugerem que os proponentes sabem que o placar está em aberto. Nada nesse processo é automático.

Como estruturar seu planejamento em torno disso? Isso é conversa pro seu advogado e contador — cada situação é uma situação.

Minha leitura

O mercado de alto padrão em South Florida absorveu bem os aumentos de property tax dos últimos anos porque o comprador de US$ 2 milhões ou US$ 5 milhões tem margem. Mas no segmento de US$ 500 mil a US$ 1,2 milhão — onde a conta anual de imposto come uma fatia real do rendimento do aluguel — a Amendment 3 pode ter efeito prático relevante na conta do investidor.

Para o comprador brasileiro que estrutura a compra como geração de renda em dólar, qualquer redução no custo fixo anual melhora a equação sem mudar o preço de entrada.

Quem compra o número de hoje, analisa com os dados de hoje. Quem compra a tese, já está monitorando o que muda em novembro.

Acompanhe o resultado da votação. E se você tem imóvel em South Florida ou está avaliando comprar, vale revisar sua conta de property tax com um contador local antes do fechamento do ano fiscal — independente do resultado da emenda.

Thiago Costa
Thiago Costa

Brasileiro, em Miami desde os anos 90. Sales Executive in-house da Fortune Development Sales, focado no mercado de alto luxo. Leitura de quem entra nos prédios.

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Sem pitch. Uma conversa de mercado.

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